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A
História
(
Esta carta foi enviada em 17.04.2001 ao Provedor de Justiça, cópias
foram enviadas para o Presidente da República, para o Primeiro
Ministro, para o Governador Civil do Porto e para o Presidente da Câmara
de Gondomar)
Em
1992, eu, minha esposa e o meu primeiro filho Egídio César, uma
criança linda, saudável, viva e inteligente, vivíamos nuns anexos
da casa da senhoria.
A
nossa casa era muito pequena, constituída por um quarto de casal,
um quarto muito pequeno que era o quarto do nosso filho, uma
cozinha, e o quarto de banho no exterior, que só tinha a sanita e o
lavatório. Era miserável, mas éramos felizes.
No
exterior em frente havia um quintal com árvores de fruto, uma
pequena vinha e um cão, onde o meu filho brincava diariamente com
os sobrinhos da senhoria e por vezes com ela, pois gostava muito
dele e levava-o com ela para todo o lado.
Um
dia a senhoria que era viúva e vivia só, adoeceu, e foi para casa
de uma filha para melhor ser cuidada.
Um
filho que vivia perto ficou a cuidar do cão e ia frequentemente
tratar do mesmo.
No
dia 15 de Abril de 1992 pelas 12 horas recebi um telefonema no meu
serviço a dizer que viesse urgentemente a casa que o meu filho
tinha ingerido qualquer coisa e estava mal. Fiquei apreensivo mas
duvidei porque nós tinha-mos tudo bem acautelado, até as garrafas
de vinho vazias eram colocadas fora do alcance dele. Cerca de meia
hora depois, quando cheguei a casa, deparei com o meu filho
praticamente morto.
Era
nítido que tinha sido vítima de envenenamento, estava pálido,
tinha os lábios roxos e espumava pela boca.
Foi
levado para o hospital de S. João pelos bombeiros de Gondomar, onde
chegou já sem vida e foi reanimado conforme o relatório médico.
Quando
mais tarde cheguei a casa para tranquilizar a minha esposa e os
vizinhos, é que fiquei a saber o que se tinha passado.
O
filho da senhoria ( adulto e de boa saúde mental ) no dia anterior
tinha ido lavar o cão que se encontrava infestado de parasitas,
para isso adicionou na água um produto altamente tóxico ( 605
Forte ), tendo abandonado o frasco desarrolhado e ainda com produto,
no local, ao alcance das crianças.
Quando
no dia seguinte o meu filho foi brincar, encontrou o frasco e
meteu-o na boca.
Tendo
o meu filho ficado incapacitado a 100%, totalmente paralisado, no
dia 13 de Outubro de 92 apresentamos uma queixa crime contra o
sujeito.
No
inicio de 1995 como não tinha noticias do processo, nem pelo meu
advogado nem do tribunal, resolvi procurar.
Depois
de percorrer todo o trajecto que o processo seguiu, fui ter ao
tribunal de S. João Novo onde terminou a pista. Neste tribunal
ninguém encontrava o processo, por isso deixei todos os
elementos com uma pessoa conhecida que lá trabalhava e que passados
dois dias me informou que o processo estava arquivado.
Em
31 de Março de 1995 metemos uma acção cível, e em Novembro de
1997 foi realizado o julgamento no qual não foi permitida a entrada
do meu filho nem da minha esposa que o acompanhava. Foram rejeitadas
as declarações do réu prestadas na judiciária aquando da queixa
crime ( processo anterior ) e que constituíam uma das principais
provas já que o local do sinistro era muito escondido por ser nas
traseiras da casa, rodeado de árvores e não haviam testemunhas que
tivessem visto o sujeito usar e abandonar no local o dito produto (
se as houvesse seriam tão criminosas como ele ).
Apesar
de mais ninguém para além do réu ter entrado na propriedade, de
ele ter confessado que foi lá lavar o cão com um produto tóxico,
de o cão ter morrido dias depois, e de o meu
filho ter ficado totalmente incapacitado, o tribunal
considerou que não havia provas, beneficiando assim o réu e
desprezando todas as evidências, mesmo estando em jogo a vida de
uma inocente criança e que viria a afectar de uma forma desumana e
brutal a vida de toda a família.
E
nada mais adiantou. Nem o recurso de apelação, nem o recurso de
revista que foram negados em Fevereiro de 1999.
Eu,
o pai, Egídio Neves Martins de Sá, com 43 anos de idade, cumpri o
serviço militar e tenho os impostos em dia, mesmo depois de tudo o
que se passou.
Neste
momento é como se tivesse sido atraiçoado por aqueles por quem me
sacrifico e contribuo com os meus impostos para o seu ordenado,
pela minha própria pátria. De tal forma que por vezes me pergunto
a mim mesmo: Quem nos protege desta justiça? Tenho
conhecimento de casos, em que sendo a vítima um animal, a Sociedade
Protectora dos Animais tratou do caso com mais atenção e rigor do
que a justiça o fez com o do meu filho.
Não
me conformo !
Eu
vivia feliz e o meu filho era uma criança saudável e inteligente.
Não
ficou assim por obra e graça do Espírito Santo.
Tem
de existir um culpado! E quem nos indemnize. E que nos ajude a
carregar com esta situação. Se a justiça ou as entidades
competentes não o querem responsabilizar ou punir, eu não me
importo. Até lhe podem dar uma medalha! Desde que assumam, e se
substituam a ele, nos indemnizem e compensem por forma a minimizar o
nosso sofrimento, e a proporcionar uma melhor qualidade de vida e o
bem estar do Egídio César.
Foi
como se nos tivessem roubado tudo;
-
O filho
-
A felicidade
-
A alegria de viver
-
A possibilidade de singrar na vida
-
O futuro
Nos
anos que se seguiram aos factos a vida da minha família tem sido um
tormento.
Poucas
têm sido as noites bem dormidas. A minha esposa nunca mais pode ter
um emprego pois tem que tomar conta do filho. Desde então a sua
vida é ele, são as consultas periódicas, são os episódios de
urgência que acontecem com frequência, são as idas á
fisioterapia e são os cuidados constantes.
Nem
eu posso levar uma vida profissional rentável porque tenho que
abandonar frequentemente o serviço para dar apoio, para
transportar, para o ir ver ao hospital quando está internado, o que
acontece com frequência.
Desde
1992 que não temos férias, não vamos a um teatro nem ao cinema.
O
seu irmão que actualmente tem 7 anos, no inicio da escolaridade
teve que ter apoio psicológico afim de se integrar e conviver com
os colegas.
Em
suma toda a família foi afectada de tal forma que muitas vezes digo
que “toda a família ficou deficiente”. As
despesas com medicação, fraldas e transportes têm sobrecarregado
toda a família de uma forma brutal, no entanto os impostos são
cobrados tal e qual como a uma família normal.
Actualmente
o Egídio César tem 11 anos, vive num 3º andar onde tem que ser
transportado ao colo porque não há condições dentro de casa para
andar com uma cadeira (se a tivesse, pois à dois anos que aguarda
que a Segurança Social lhe dê uma). Já com a anterior se passou o
mesmo, esteve tanto tempo à espera que quando a cadeira veio, já
estava a ficar pequena. Também não tem cadeira para utilizar em
transporte. Da estrada à entrada ao elevador, existem dois lanços
de escadas e quando falta a electricidade ou avaria o elevador tem
que ser levado ao colo para o 3º andar.
Não
tem um quarto individual, divide o quarto com o irmão. Não possui
cama hospitalar.
RESUMO
Tudo
e todos sabem quem é o responsável, o criminoso, só o tribunal é
que não.
A
justiça comungou da opinião da vizinhança, na maior parte família
do sujeito e que acha que ele não fez de propósito. Não só
comungou como tudo fez para favorece-lo;
-
Arquivou o processo e não avisou ninguém, até que chegasse
á altura de beneficiar de amnistia. Se eu não o fosse
procurar, ainda hoje ninguém sabia dele.
-
Não investigou a morte e os restos do cão.
-
Não investigou quem entrou lá na casa para além do
arguido.
-
Não pediu a comparência em tribunal do agente da judiciária
que interrogou o sujeito.
-
Não admitiu na sala do julgamento o meu filho, nem a minha
esposa que não o podia deixar sozinho.
-
Em suma, procedeu como se a vida de uma inocente criança
fosse algo banal e desprezível.
Eu
sei que na lei existe cobertura para todos estes procedimentos. Ou
por estarem ao abrigo da lei, ou porque o advogado não procedeu
como devia, ou porque o tribunal não tinha obrigação de..... Mas
não consigo entender.
São
expressões por demais ouvidas ao longo destes 9 anos, mas não
fazem o mínimo sentido para quem tinha um filho perfeito e saudável
e de um momento para o outro lho colocam nos braços total e
completamente inutilizado para que cuide dele sem a mínima ajuda,
antes pelo contrário, só aumentam a minha revolta.
Além
disso tenho feito tudo, e tudo tem sido ignorado;
-
Apresentei queixa ás autoridades competentes.
-
Paguei todas as custas e honorários num valor superior a 1
milhão de escudos.
-
Recorri à Associação de Apoio à Vitima mas nem me
responderam.
Posto
isto o que pretendemos?
-
Uma casa de rés do chão. Ou terreno onde possamos construir
uma casa adaptada ao menino e à nossa família.
-
Apoios financeiros para as despesas enormes que todos os dias
a situação nos traz, e para a aquisição de ajudas técnicas, por
exemplo, cadeira adaptada ao menino e à sua idade, cama hospitalar,
etc.
Certamente
concordará que se trata de uma grande injustiça. Estou certo que
nos ajudará e encaminhará este caso de forma a pôr fim a esta
angústia que é ver um filho inocente, privado da sua vida, dos
seus direitos e ano após ano assistir a tudo isto impotente.
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